Yoga Nidra, por Joseph Le Page


Coloque o seu corpo em uma posição onde você possa relaxar completamente. Suavize cada parte do seu corpo, progressivamente, chegando a um lugar de um profundo descanso...

Agora, pense em uma época muito tempo atrás...

Agora duplique este tempo e observe o quanto você foi lá atrás no tempo...

Agora duplique novamente esse tempo e continue a mover-se para trás no tempo até chegar a um espaço antes do nascimento do universo, há uns 15 bilhões de anos.

Experimente esse lugar antes do universo como um espaço de puro potencial, energia e inteligência... A semente de uma flor esperando florescer...

Leve o tempo que precisar para sentir dentro do seu corpo os elementos desse universo em potencial, incluindo o tempo, o espaço, a matéria, os sentidos, os níveis mentais e também a inteligência, bem no coração da existência...

Veja-se a si mesmo como o universo em potencial. Saiba que o ser individual que você é agora já existia em potencial naquela semente do universo, antes de sua aurora.

Agora, experimente o universo começando a expandir-se dentro do seu corpo...

Sinta a criação de bilhões de galáxias e a criação das estrelas. Sinta suas 50 trilhões de células como microcósmicos corpos estelares, iguais àqueles que se expandem no universo...

Sinta o nascimento da galáxia Via Láctea e de nosso próprio Sol, sabendo que o desdobramento completo dessa história é parte de um plano perfeito, no qual a menor mudança dos acontecimentos teria impedido para sempre a existência do universo.

Agora, sinta dentro do seu próprio corpo a criação da nossa Terra, e perceba seu centro em erupção e suas camadas de pedra nos seus ossos...

Sinta a criação dos oceanos em seu próprio sangue e nos fluidos que banham seu cérebro, sua coluna vertebral e cada célula e tecido do seu corpo...

Perceba os movimentos dos grandes oceanos e a dança entre terra e água que durou milhões de anos transformando os continentes.

Agora, sinta a origem da vida ocorrendo através de uma centelha de luz misturada à terra e à água. Sinta a criação da vida nas células de seu próprio corpo, sabendo que você estava presente no momento de sua criação...

Siga a evolução dessas formas de vida adaptando-se numa interação sem fim, levando à evolução do homem quando os elementos principais dão luz à consciência do ser e às camadas da mente.


Joseph Le Page

Sankalpa

Sankalpa significa “resolução interior”.O Sankalpa é uma afirmação breve e positiva a respeito de você mesmo. Tem a ver com o seu propósito de vida, com sua missão. Ele deve ser repetido mentalmente pelo menos três vezes antes de começar uma prática de Yoganidra e três vezes ao final.

Para escolher o seu Sankalpa fique em recolhimento em local tranqüilo, seja honesto consigo mesmo, veja sua trajetória de vida, seus anseios, do que precisa, suas conquistas, seus acertos, seus enganos, perceba-se como um ser Espírito que é. Deixe sua vida passar como um filme e ao final deixe que seu Sankalpa se apresente, como uma mensagem do seu Espírito imortal.

O Sankalpa deve ser breve, não deve conter afirmações negativas, como por exemplo “não sou doente”, mas sim “SOU SAUDÁVEL”. O Sankalpa não deve ser muito grande, basta uma frase, mas uma frase que represente a verdade absoluta para você. Aceite-o como verdade incondicional. Não construa um Sankalpa que dê margem a interpretações variadas. Ele deve ser absoluto, sem duplo significado; ele deve estar no presente, nunca no futuro. Ex: “Serei Forte”, mas sim “SOU FORTE”

Cuidado com a escolha do Sankalpa, o que pedir, obterá, então cuidado com o que deseja.


Qualquer coisa na vida pode falhar, eu lhes asseguro, porém não o juramento ou a resolução (sankalpa) que se faz antes e depois de uma Yoganidra bem executada.


Swami Satyananda Saraswati

"Eu sei, mas não devia"

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.


As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.


Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada,
A não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.


Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
Um ressentimento ali, uma revolta acolá.


Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
Da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
De tanto acostumar, se perde de si mesma.

Texto de Marina Colasanti - Do livro "Eu sei mas não devia”

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